Reino de Deus

O Reino de Deus designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante. Segundo o Gênesis, os primeiros humanos rebelaram-se deliberadamente contra a soberania de Deus, por isso, eles foram expulsos do Jardim do Éden.
O Reino de Deus é um conceito fundamental nas 3 principais religiões abraâmicas existentes: o Judaísmo, o Islamismo e, mais notavelmente, o Cristianismo. Nesta última religião monoteísta, o Reino de Deus constitui o tema principal pregado por Jesus, através de parábolas.
No Judaísmo
O Reino de Deus é frequentemente referido no Tanakh.[1] Este conceito está muito ligado à crença judaica de que Javé (Deus) iria restaurar a nação de Israel. Aliás, o Reino de Deus foi prometido por Javé ao Rei David de Israel.[2]
Também no Tanakh, Javé é apresentado como o verdadeiro Rei de Israel, sobretudo a partir da monarquia, quando são ungidos reis para gover¬na¬rem o povo em nome de Javé. Neste caso o Reino de Deus é mais um reino material com características políticas, ou seja um reino deste mundo, assemelhando-se a uma monarquia teocrática. Porém, depois do Exílio na Babilônia, o conceito de Reino de Deus foi espiritualizado, passando o culto de Javé a ser predominantemente religioso e universal. Esta espiritualização deveu-se muito ao esforço e trabalho de vários profetas judeus.[3]
No Cristianismo
Entre os teólogos cristãos existem conceitos divergentes mas não incompatíveis quanto ao que é concretamente o Reino de Deus, que podemos sintetizar em três pontos:
• um governo real e/ou universal de Deus estabelecido no Céu e também na Terra completamente renovada no fim dos tempos, no dia do Juízo final e com existência eterna;
• uma condição interior de dimensão pessoal, de carácter espiritual, moral, mental e psíquico/psicológico, existente em todos aqueles que estão na graça de Deus e que seguem verdadeiramente a vontade de Deus e os ensinamentos e exemplo de Jesus Cristo;
• a Igreja Cristã.
Pelo menos segundo a doutrina da Igreja Católica, o Reino de Deus tem simultaneamente uma dimensão pessoal, de carácter espiritual e mo¬ral, em cada homem; e uma dimensão universal que se manifestará no fim dos tempos, no dia do Juízo Final, quando tudo se consumirá e estabelecerá uma nova Terra e um novo Céu, onde os justos vivem em Deus, com Deus e junto de Deus.[3] Tal só irá acontecer quando o Reino, que já foi instaurado na Terra por Jesus,[4] já estiver perfeito e suficientemente maduro.
Os valores principais do Reino de Deus são a verdade, a justiça, a paz, a fraternidade, o perdão, a liberdade, a alegria e a dignidade da pessoa humana.[5]
Reino de Deus e Reino dos Céus
Enquanto o evangelho segundo São Mateus se dirige aos judeus na maioria das vezes falando em Reino dos Céus, no evangelho segundo São Marcos e São Lucas falam sobre o Reino de Deus, expressão essa que tem o mesmo sentido daquela, ainda mais que inteligível para os que não eram judeus. O emprego de Reino dos Céus, no evangelho segundo São Mateus, certamente é devido à tendência, no judaísmo, de evitar o uso direto do nome de Deus.[6] Na verdade é preciso entender que “Reino de Deus” em sua interpretação direta da palavra nos induz a uma verdade que não pode ser negada: o Reino é de Deus. Esta frase aponta para o Rei (Deus), enquanto a expressão “Reino dos Céus” aponta para a origem do Reino. Portanto em sua interpretação direta da palavra nos induz a uma verdade que também não pode ser negada: o Reino vem dos Céus, querendo isto dizer que o Reino não é feito de políticas nem de relações sociais terrenas. O Reino tornar-se-ia portanto mais do que numa simples monarquia, mas sim numa grande família de amor onde o Pai (Deus) viverá em, com e junto dos seus filhos (os humanos bem-aventurados) [7] e onde não irá existir mais súbditos, governados nem classes sociais distintas.
Anúncio e características do Reino
O Reino de Deus, que foi inaugurado na terra por Cristo,[4] está destinado a acolher todos os homens, mas foi primeiramete anunciado aos filhos de Israel.[8] Este Reino foi já anunciado por João Baptista, que exortou as pessoas a arrependerem, porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 3,2). Mais tarde, Jesus de Nazaré, o prometido Messias e Salvador da humanidade, foi baptizado e Ungido (Lc 3,30-31), começando assim o seu ministério, que centrou-se necessariamente em torno do Reino de Deus. Ele instruíu os seus apóstolos a pregar que está próximo o Reino dos Céus. Essas instruções seriam repetidas a todos os seus discípulos, a todos os cristãos (Mt 10,7; 24,14; 28,19-20; Act 1,8). A Bíblia inteira gira em torno da vinda do Messias e do Reino do Deus. Por conseguinte, o Reino de Deus, que é uma grande realidade misteriosa, tem um grande sentido profético e missionário na vida da Igreja Cristã.
Jesus, através de parábolas, convida todas as pessoas a entrar no Reino de Deus, ou seja, tornar-se discípulos d’Ele, para conhecer os mistérios do Reino dos Céus (Mt 13,11). Segundo o Catecismo da Igreja Católica, Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. Para os que ficam “de fora” (Mc 4,11), tudo permanece enigmático.[9] Jesus exorta os seus discípulos a buscar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça (Mt 6,33).
O Reino de Deus, que não terá fim e que já está no meio de nós (Lc 17, 21), é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17); é o fim último ao qual Deus nos chama;[10] é obra do Espírito Santo;[11] e é também um império eterno que jamais passará e…jamais será destruído (Dn 7,14).
Todas as pessoas que querem pertencer ao Reino de Deus precisam de converter-se, de realizar a vontade divina, de ter fé em Jesus e de acolher a sua palavra.[8] De facto, Jesus convida todas pessoas à conversão (um pré-requisito para o acesso ao Reino), a renunciar o mal e o pecado (um grande obstáculo para o acesso ao Reino) e a arrependerem os seus pecados e experimentarem o ilimitado perdão e misericórdia de Deus. Este apelo constitui a parte fundamental do anúncio do Reino de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Este apelo à conversão é especialmente para os não-cristãos e os pecadores, pois Jesus afirma que não vim chamar justos, mas pecadores (Mc 2,17) e que Deus Pai sentirá imensa alegria no céu por um único pecador que se arrepende (Lc 15,7). Esta conversão e remissão dos pecados (Mt 26,28) só foi possível pelo sacrifíco de Jesus, Filho de Deus Pai, na cruz, constituindo a suprema prova do amor que Deus tem pelos homens.[12]
Jesus afirmou que não entrará no Reino todo o que não o receber com a mentalidade de uma criança (Mc 10,15),[13] quem não nascer de novo[14] (Jo 3,3), aquele que não faz a vontade de meu Pai que está nos céus (Mt 7,21) e os injustos (1Cor 6,9).
Para ter acesso ao Reino de Deus, é preciso passarmos por muitas tribulações (Act 14,22) e também cumprir a Lei de Deus, porque aquele, portanto, que violar um só destes menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo [vai] ser chamado o menor no Reino dos Céus; aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos Céus (Mt 5,17-19).
As Bem-aventuranças, pregadas por Jesus no famoso Sermão da Montanha e que anunciam e revelam aos homens a verdadeira felicidade, são por isso também um grande anúncio da vinda do Reino de Deus através da palavra e acção de Jesus e também do carácter das pessoas que pertencem ao Reino. Jesus exorta as pessoas a seguir este carácter exemplar, para poderem depois entrarem no Reino de Deus, ou seja, para obterem a salvação e a vida eterna.
Uma vez inaugurada na Terra por Jesus, ninguém, nem mesmo Satanás, consegue travar e impedir a edificação e a realização final e perfeita do Reino de Deus. Mas, este Reino, enquanto não atingir a sua perfeição, é ainda atacado pelos poderes maus, embora estes já tenham sido vencidos em suas bases pela Morte na cruz e Ressureição de Jesus. Satanás, um ser muito poderoso e maligno, só consegue atrasar a realização final do Reino na Terra, através do cultivo do ódio no mundo contra Deus.[15]
Este Reino, para grande desapontamento de muitos judeus da altura, não vinha restabelecer o reinado temporal de Israel e não é um reino deste mundo, ou seja, não é um reino com características políticas, mas sim com características predominantemente espirituais. Resumindo, o Reino de Deus, que cresce como uma semente que Deus coloca no coração de cada homem (dimensão pessoal), é a plena instauração da lei do amor a Deus e ao próximo e terá a sua realização final e perfeita na vida do mundo que há-de vir, na nova Terra e no novo Céu implantados por Deus no fim dos tempos (dimensão universal).[5]
Sinais do Reino
Jesus operou muitos milagres, prodígios e sinais (Act 2,22), que provam que Ele é o Messias anunciado, o Filho de Deus e o Salvador enviado por Deus Pai e que o Reino de Deus está presente n’Ele e já está no meio de nós (Lc 17, 21). A operação destes sinais milagrosos, que pode ser ocasião de escândalo para alguns, tem por objectivo convidar as pessoas a crerem em Jesus e nas suas palavras. Aos que a Ele se dirigem com fé, concede o que pedem. Apesar dos seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns e até acusado de agir por intermédio dos demônios.[16]
Jesus, que não veio abolir todos os males da Terra, libertou ainda assim certas pessoas dos males terrestres da fome, da injustiça, da doença e da morte, antevendo assim que, quando chegar na altura da realização final do Reino de Deus, todos estes males irão desaparecer. Aliás, Jesus operou sinais messiânicos veio para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do pecado, que os entrava em sua vocação de filhos de Deus e causa todas as suas escravidões humanas.[17]
Os exorcismos que Jesus efectuou libertaram homens do domínio dos demónios, afirmando que se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demónios, então o Reino de Deus já chegou a vós (Mt 12,28). Isto prediz também que o advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás e antecipa a grande vitória de Jesus sobre “o príncipe deste mundo”.[18]
Jesus, embora não curou todos os doentes do mundo, curou ainda assim vários enfermos, incluindo leprosos, que naquela altura eram isolados e altamente discriminados. Estas curas eram sinais da vinda do Reino de Deus e anunciavam uma cura mais radical: a vitória sobre o pecado e a morte pela Ressurreição de Jesus. Na cruz, Cristo tomou sobre si todo o peso do mal e tirou o “pecado do mundo” (Jo 1,29).[19]
A entrada de Jesus em Jerusalém, a Transfiguração e a Ascensão de Jesus são também sinais da vinda do Reino e do começo da consumação do desígnio de Deus sobre a sua Criação (o estabelecimento do Reino de Deus).[20]
Resumindo, o Reino de Deus manifesta-se lucidamente aos homens na palavra, nas obras e na presença de Cristo.[21]
Reino de Deus e Igreja
Segundo a doutrina da Igreja Católica, a Igreja é o germe e o começo do Reino de Deus na Terra,[4] visto que foi Jesus, o fundador e a Cabeça da Igreja, que inaugurou o Reino de Deus na Terra e que o semeou nos corações de cada homem (que pode dar frutos ou não). Mesmo que Ele foi elevado ao céu, continua a estar presente na Terra na sua Igreja.
O Reino de Deus já está misteriosamente presente na Igreja[22] e manifesta-se nela, de forma sacramental. Enquanto tudo e todos os homens não forem submetidos ao Reino de Deus e enquanto não houver novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça, a Igreja peregrina (Igreja na Terra), auxiliada e guiada pelo Espírito Santo, continua a aguardar a realização final do Reino de Deus, juntamente com os seus sacramentos, as suas instituições e os seus membros. Mas, esta realização final pode ser antecipada por ela através da evangelização,[23] que engloba a anunciação de Jesus Cristo e do Reino de Deus a todo o mun¬do. Com isto, acelera-se o estabelecimento do Reino em todos os povos [24] e a união de todas as pessoas pela fé em Jesus.[3][25]
Os cristãos, como membros vivos da Igreja, num trabalho de discernimento segundo o Espírito Santo, devem saber distinguir entre o crescimento do Reino de Deus e o progresso da cultura e da sociedade em que pertencem e fazem parte. Como distinguir não é sinónimo de separar, logo a vocação do homem para a vida eterna não suprime, antes reforça seu dever de acionar as energias e os meios recebidos do Criador para servir neste mundo à justiça e à paz.[26]
Realização final do Reino
Ver artigo principal: Juízo Final
Já presente misteriosamente na Igreja Cristã, que é o seu germe e começo, o Reino de Deus ainda não atingiu a perfeição (ou a sua realização final), ou seja, ainda não está consumado “com poder e grande glória” (Lc 21, 17).[25]
Segundo a doutrina da Igreja Católica, o Reino de Deus só irá chegar à sua plenitude (ou perfeição), no fim dos tempos,[27] depois de ocorrer uma vitória de Deus sobre o desencadeamento último do mal. Este triunfo divino sobre a última investida das potências do mal fará descer novamente Jesus à Terra e assumirá a forma do Juízo Final depois do derradeiro abalo cósmico deste mundo que passa [28]
Depois do Juízo final, os justos, que são separados dos ímpios e dos injustos, reinarão com Cristo para sempre, glorificados em corpo e alma, e o próprio universo material será transformado. Então Deus será “tudo em todos” (1 Cor 15,28), na Vida Eterna.[29]
Segundo a doutrina adventista, que tem uma interpretação diferente pelo menos para a realização final do Reino, este tem um subsidiário que o precede, que se chama Reino Milenar de Cristo. Segunda esta corrente cristã, o Juízo Final, que precede à implantação final do Reino, é constituído de 3 fases: Investigativo, Comprovativo e Executivo; onde preconiza, entre outras coisas, várias vindas de Jesus à Terra, várias ressurreições dos mortos e uma grande guerra de proporções épicas entre Satanás (e os humanos ímpios ou maus) e Deus (e os homens justos e santos).
Reino de Deus e os não-cristãos
Pelo menos segundo a doutrina da Igreja Católica, todos aqueles que, sem culpa própria, ignoram a Verdade contida nos ensinamentos de Jesus Cristo e da sua Igreja, mas que “procuram sinceramente Deus e, sob o influxo da graça, se esforçam por cumprir a sua vontade”, podem conseguir a salvação eterna,[30] ou seja, podem ter acesso ao Reino de Deus.
Reino de Deus como um Projecto de Deus
O Reino de Deus pode também ser encarado como o Projecto Criador de Deus a realizar neste Mundo e que consiste na plena realização da Criação de Deus, finalmente liberta de toda a imperfeição e compenetrada por Ele. Portanto, pode ser compreendido como o desígnio último de Deus sobre a sua Criação, cuja consumação (ou realização) no mundo foi iniciada por Jesus, o inaugurador do Reino na Terra, e ainda hoje é continuada pela sua Igreja, que é encabeçada por Ele.
O Reino de Deus pode ser interpretado também como o estado terminal e final da salvação, onde os homens irão transcender-se e viver eternamente com Deus, em Deus e junto de Deus. Lá, a lei do amor incondicional a Deus e ao próximo é finalmente instaurada definitivamente. Não haverá mais tempo, mais sofrimento, mais conflitos, mais ódio, e o céu e a terra unem-se finalmente, instaurando um novo céu e uma nova terra.
Embora Deus seja Todo-Poderoso, Ele quer que os humanos, dotados de inteligência e razão, participassem de um modo recíproco, livre e voluntário no Projecto Criador de Deus, o maior de todos os projectos que o mundo jamais viu, englobando todos os tempos, todos os povos e todos os seres do Universo. Seguindo este pensamento, esta missão torna a humanidade verdadeira parceira de Deus, com muita liberdade e simultaneamente muita responsabilidade. Isto quer dizer que os homens, como membros vivos da Igreja, têm o poder e a capacidade de acelerar e antecipar a vinda do Reino de Deus com a sua fé em Jesus Cristo e com as suas boas acções.[31][32]

v • e
Cristianismo

Católicos
Católico Romano • Católicos Independentes (ex: Velha Igreja Católica, Igreja Católica Liberal e Católicos brasileiros dissidentes)

Protestantes
Luteranos • Reformados • Anabatistas • Batistas • Anglicanos • Metodistas • Adventistas • Evangélicos • Pentecostais

Orientais
Igreja Ortodoxa • Igrejas não-calcedonianas • Igreja Assíria do Oriente

Antitrinitarismo
Testemunhas de Jeová • Os Santos dos Últimos Dias • Unitarianos • Cristadelfianos • Pentecostais do Nome de Jesus

Cristianismo Esotérico
Rosacrucianos • Gnósticos • Teosofia • Antroposofia

Sobre quilton

professor, escritor e aspiro tirar medicina
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